Infraestrutura14 de maio de 202612 min de leitura

700 Pontes de Madeira nas Rodovias Federais: Quem é o Responsável Quando a Estrutura Cede?

O governo federal anunciou a substituição das 700 pontes de madeira nas rodovias federais. Mas esse número é apenas a ponta do iceberg: ninguém sabe ao certo quantas pontes existem no Brasil. Análise jurídica sobre responsabilidade civil do Estado, o caso da ponte JK e o que a nova portaria ainda não resolve.

700 Pontes de Madeira nas Rodovias Federais: Quem é o Responsável Quando a Estrutura Cede?

Por Félix de Morais | Infralaw Partners | 14 de maio de 2026


O Ministério dos Transportes publicou, nesta semana, uma portaria determinando a substituição das cerca de 700 pontes de madeira ainda existentes nas rodovias federais brasileiras. O DNIT tem 45 dias para apresentar um plano de ação com cronograma e um ano para concluir o levantamento completo dessas estruturas. A medida foi bem recebida pelo setor — mas esconde um problema muito maior do que o número sugere.

Setecentas é apenas a ponta do iceberg.


O Número que o Brasil Não Conhece

Quantas pontes existem no Brasil? A resposta, em 2026, é: ninguém sabe ao certo. As estimativas variam de 120 mil a 250 mil estruturas — uma margem de erro superior a 100%, o que por si só já deveria ser motivo de constrangimento institucional.

O DNIT gerencia diretamente 5.827 pontes nas rodovias federais. O ministro Renan Filho chegou a mencionar "9 mil obras de arte especiais" sob responsabilidade federal. Mas quando se somam as estruturas estaduais, municipais e as que estão em rodovias concedidas à iniciativa privada, o quadro se torna opaco. Mato Grosso, por exemplo, tem 1.298 pontes de madeira a substituir em suas rodovias estaduais e estradas vicinais municipais — programa que deve ser concluído até o final de 2026, segundo a Secretaria de Infraestrutura e Logística do estado (Sinfra). A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) identificou pontes de madeira em estradas vicinais de 246 municípios brasileiros. Trinta por cento de todas as pontes do país são de responsabilidade de prefeituras — muitas delas sem corpo técnico ou orçamento para inspeção regular.

As 700 pontes de madeira das rodovias federais são as que o governo federal consegue enxergar. O restante vive na penumbra do subregistro.


Um Passivo Que Já Cobrou Vidas

Em 22 de dezembro de 2024, a Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, que conectava os estados do Maranhão e do Tocantins sobre o Rio Tocantins, colapsou. Eram 14h50 de um domingo. Dez veículos caíram no rio — entre eles, dois caminhões carregados de ácido sulfúrico e um com defensivos agrícolas. O saldo: 14 mortos e 7 desaparecidos.

O que veio à tona depois foi ainda mais perturbador. Um relatório técnico do próprio DNIT, elaborado em 2020, já apontava 19 tipos de danos estruturais na ponte, com fissuras em 14 dos 16 pilares e "nível elevado de danificação da estrutura". O sistema gerencial do órgão classificava a ponte com nota 2 em uma escala de 1 a 5 — condição "ruim". Em 2024, o DNIT lançou um edital de R$ 13,3 milhões para reabilitar a estrutura. Não houve interessados.

O diretor-geral do DNIT, Fabrício Galvão, assumiu a responsabilidade publicamente no programa Fantástico: "Eu entendo que o DNIT é o responsável pela queda dessa ponte." A Polícia Federal abriu investigação. O custo estimado para reconstrução: entre R$ 100 milhões e R$ 150 milhões.

A tragédia da ponte JK não foi um acidente. Foi o resultado previsível de décadas de negligência documentada.


O Quadro Nacional: 11 Mil Estruturas em Risco

A ponte JK não é uma exceção. Segundo o estudo Panorama Geral das Pontes Rodoviárias Brasileiras, publicado em agosto de 2025, o Brasil possui mais de 113 mil Obras de Arte Especiais (OAEs). Dessas, mais de 11 mil estão em situação de risco estrutural relevante.

Das 5.827 pontes federais administradas pelo DNIT, 727 estavam classificadas como críticas ou ruins até maio de 2023 — sendo 130 delas na pior condição possível. Isso representa 1 em cada 8 pontes federais em estado muito comprometido.

O problema tem raiz estrutural: grande parte das pontes brasileiras foi construída sob a antiga norma técnica, que previa suportar cargas de 25 toneladas. Hoje, caminhões bitrem cruzam o país transportando 45 toneladas — fora o peso do próprio veículo. A infraestrutura envelheceu; a carga aumentou; a manutenção não acompanhou nenhum dos dois.

Em resposta ao colapso da ponte JK, o DNIT reformulou seu programa de pontes em fevereiro de 2025 e anunciou R$ 5,8 bilhões para manutenção de 816 estruturas em situação precária.


A Pesquisa CNT e o Custo da Negligência

A Pesquisa CNT de Rodovias 2025, que avaliou 114.197 quilômetros de malha pavimentada, registrou avanços: os trechos classificados como ruins ou péssimos caíram de 26,6% para 19,1% em relação a 2024. Nas rodovias concedidas, a melhora foi ainda mais expressiva — apenas 618 km ruins em 2025, contra 1.609 km no ano anterior, uma redução de 61,6%.

Mas os números de custo revelam a dimensão real do passivo acumulado. A má qualidade do pavimento eleva os custos operacionais do transporte em 31,2%, em média. O desperdício anual estimado apenas com consumo adicional de diesel chega a R$ 7,2 bilhões. E entre janeiro de 2016 e julho de 2025, foram registrados 697.435 acidentes em rodovias federais, com custo econômico acumulado de R$ 149,67 bilhões.

A conta da negligência não fica no orçamento do DNIT. Ela é paga por motoristas, transportadoras, seguradoras — e, nos casos mais graves, por famílias que perdem seus mortos em rios.


A Questão Jurídica: Quem Responde?

A nova portaria do Ministério dos Transportes cria obrigações claras para o DNIT e, nas rodovias concedidas, para as concessionárias sob fiscalização da ANTT. Mas a distribuição de responsabilidade no direito brasileiro já estava estabelecida — e é mais complexa do que parece.

A responsabilidade civil do Estado por danos causados por obras e serviços públicos é objetiva, nos termos do artigo 37, §6º, da Constituição Federal. Isso significa que não é necessário provar culpa ou dolo — basta demonstrar o dano e o nexo causal com a omissão do poder público. O STJ já consolidou o entendimento de que o DNIT é parte legítima para responder por acidentes em rodovias federais, mesmo nas que estão sob concessão.

Nas rodovias concedidas, a responsabilidade primária pelo monitoramento operacional é da concessionária, sob fiscalização da ANTT. Mas até a publicação da nova portaria, havia um problema grave: a fragmentação das informações. Quando uma rodovia era concedida, a gestão operacional das estruturas passava à concessionária, mas não havia compartilhamento padronizado das informações técnicas com o DNIT. Cada ator tinha um pedaço do quebra-cabeça — e ninguém tinha a imagem completa.

O SGE (Sistema de Gestão de Estrutura), criado pela nova portaria como cadastro geral unificado, é a tentativa de resolver esse problema. A partir de agora, DNIT, ANTT e concessionárias deverão alimentar um único sistema, com prazo de 24 horas para avaliação de estruturas com risco iminente de colapso.

Há, porém, uma lacuna relevante: a portaria não cria rubrica orçamentária específica para as substituições nas rodovias públicas. Os investimentos continuarão dependendo do Orçamento Geral da União, com possibilidade de financiamentos externos junto a organismos multilaterais.


A Inovação do Modelo Pré-Moldado

Um dos aspectos mais interessantes da nova política é a adoção de modelos construtivos pré-moldados para as pontes de madeira em regiões isoladas. A lógica é simples: partes das pontes serão produzidas em centros industriais e transportadas para instalação no local, reduzindo custos e ampliando o interesse das empresas em licitações de baixo atrativo econômico.

A estratégia de agrupar pontes em lotes maiores — reunindo estruturas com diferentes níveis de prioridade — também é uma resposta ao problema crônico de baixa competitividade nos certames de regiões remotas. É uma solução de engenharia contratual: se uma ponte isolada não atrai ninguém, talvez um lote de dez pontes em estados diferentes atraia.

O CONFEA defende ainda o uso do BIM (Building Information Modeling) como ferramenta padrão de gestão de OAEs — o que a nova portaria já incorporou como obrigação para novos projetos.


O Que Ainda Falta

A portaria é um passo necessário. Mas há questões que ela não resolve:

Primeiro, o prazo de 45 dias para o plano de ação é administrativo — não há sanção expressa para o descumprimento.

Segundo, as 700 pontes federais são apenas as que o governo federal enxerga. As pontes estaduais, municipais e vicinais continuam fora do radar da nova política.

Terceiro, o problema de mão de obra qualificada para executar as obras é real. O Brasil enfrenta um déficit de 75 mil engenheiros. Substituir 700 pontes em regiões isoladas exige logística e expertise técnica que o mercado ainda está reconstituindo.

Quarto, a nova portaria trata das pontes de madeira como um problema de substituição física. Mas o problema maior é de governança: por que o Brasil chegou a 2026 sem saber ao certo quantas pontes tem? Por que um relatório de 2020 apontando risco de colapso não gerou interdição imediata?


Conclusão

A portaria que determina a substituição das 700 pontes de madeira nas rodovias federais é bem-vinda. Mas ela não deve ser lida como solução — e sim como reconhecimento tardio de um problema que já cobrou vidas e continuará cobrando enquanto o passivo das pontes estaduais e municipais permanecer invisível.

O Brasil não tem um problema de 700 pontes. Tem um problema de governança de infraestrutura que se acumulou por décadas, em todos os níveis federativos, e que agora começa a ser enfrentado — com urgência, mas sem os recursos e a coordenação que a dimensão real do desafio exige.

A pergunta que fica não é técnica. É jurídica e política: quando a próxima ponte ceder — e ela vai ceder — quem vai responder?

FM
Dr. Félix de Morais
Advogado · Engenheiro Civil · OAB/SP · CREA/SP

Especialista em PPPs, concessões e contratos de infraestrutura. Fundador da Infralaw Partners.

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